quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Na cidade grande.



De férias no interior, o telefone toca. É a dona do salão da esquina, pedindo para remarcar o horário do corte de cabelo do meu filho. A chuva está forte demais para o cabeleireiro sair de casa.  Eu digo que tudo bem, porque o salão é na esquina e porque são férias. A chuva cai sem culpa e todos se reorganizam sem contestação. 

Na cidade grande a natureza não tem vez. Chuva forte é sinônimo de transtorno, dos leves aos gravíssimos, sem nunca significar reorganização da agenda. Que as casas desabem, que os carros flutuem... a multidão segue obediente no cumprimento das obrigações, contestando apenas a impertinência da chuva.

Na maior cidade do país, o que faz “o galo cantar” é o imperioso relógio.  São os ponteiros que regem as pessoas, ordenando que uns acordem e que outros durmam. Não tem isso de estar claro ou escuro, porque o sol não tem moral nenhuma na capital. É com permanente susto que olho para o relógio, redondo ao alto, e me dou conta de que é mais tarde do que imaginava. Sempre é mais tarde do que imaginava. Desaprendi a olhar para o céu e ver o fim do dia se anunciando em tons de vermelho. Não sei se é porque minha janela não tem vista para o céu. Não sei se é porque os prédios estabelecem outra linha de horizonte. Talvez não haja mesmo pôr do sol em tons de vermelho na cidade grande. O dia só acaba quando o relógio decide, seja dia ou noite. Corre-se para a cama calculando o que restará de sono até “o dia” seguinte, não como quem finalmente se permite o descanso, mas como quem cumpre um último compromisso diário. Horas depois, são os números na tela do celular que deixam claro que é hora de acordar.

Aqui no interior a chuva continua caindo. Escuto a chuva, vejo a chuva, sinto o cheiro da chuva.  Lá na cidade grande, quando suspeito a chuva saio na janela para ter certeza, mas olho em direção à rua e nunca ao céu. É a presença dos guarda chuvas lá em baixo que me garantem a meteorologia, e não a fúria dos céus. A arrogância dos homens...

Num ato de transgressão, comecei a fazer crochê. Não para me distrair, como muitos dizem. Era questão de necessidade. Necessidade vital de estabelecer uma relação diferente com o passar das horas. Descobri o tempo da trama que vai crescendo inutilmente, ponto a ponto, e não segundo a segundo. O trabalho incalculável, injustificável e insensato que só duas mãos limitadas são capazes de cumprir. 

É com satisfação e rebeldia que me cubro à noite com a manta tecida por mim. Aqueço-me das horas roubadas e coloridas, na cidade grande. 




Para Juliane Pugliese. <3 i="">

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Excesso de bagagem

Precisa-se de férias urgentemente. Encerrar os compromissos do ano concluindo o que foi possível e dando por vencido o que não foi. Quando as contas a pagar, os quilos a perder, as compras a fazer, os prazos a vencer baterem à minha porta vão encontrar apenas uma placa onde se lê: “fui viajar”.

Procura-se um destino longe. De preferência onde não haja sinal de telefone. Nem wi-fi. Assim poderei desconectar os cabos plugados em minha aorta e ver no que dá. Ou morte ou alívio na pressão arterial, suponho. Quem sabe um país onde sejam proibidos aparelhos eletrônicos em geral, mesmo em modo avião.  Meus registros não mais se limitarão à memória do meu celular e eu poderei viver quantas experiências couberem no meu dia e na minha disposição.

Necessita-se viver experiências de liberdade. Livre dos conselhos de quem já esteve ali e supostamente sabe o que vale e o que não vale a pena fazer. Livre para perder todas as atrações imperdíveis. Livre da necessidade de afirmar para o mundo como sou feliz, em poses manjadas com filtro. Livre inclusive para não viver experiência nenhuma, se calhar.

Deseja-se que este destino abrigue uma cultura avessa, onde os meus padrões de comportamento sejam desengessados logo no desembarque. Ou, quem sabe, um lugar onde não haja padrões aos quais se adaptar. Que seu povo tenha idioma indecifrável, de maneira que eu não entenda a reclamação do taxista, nem a grosseria da recepcionista, nem a lamúria do pedinte, se ali houver essas pessoas. Uma barreira linguística que também me impeça de reclamar, de ser grosseira, de me lamentar. Talvez uma cultura sem povo e ficamos resolvidos.

Almeja-se um destino cujo visto de entrada só seja dado àqueles dispostos a abandonarem suas bagagens, os supérfluos de que ilusoriamente somos constituídos. Despida, neste lugar sem celular (nem wi-fi, loja, ponto-turístico, cultura, idioma ou povo), não me restará nada a fazer além de flutuar à deriva da minha própria existência, como um bebê na simbiose do útero materno. Recobrirei meus instintos mais primitivos, reconciliar-me-ei com minha natureza e deixarei apenas o tempo agir, como nunca deixou de fazer.


Procura-se.


*Ilustração: Sulamith Wulfing

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Por que viajantes são melhores seres humanos

Viajar é uma prática enriquecedora. Fato. Não importa a alta do dólar ou da temporada, o saldo final de qualquer viagem é sempre positivo. O viajante regressa de um destino carregado de conhecimentos históricos, artísticos, políticos, gastronômicos e linguísticos que fazem valer o maior dos investimentos. Se fosse possível pesar toda a “cultura” que se traz de uma viagem, o excesso de bagagem seria certeiro. Isso em si já configura um “upgrade” na existência de qualquer ser humano. Mas há outro benefício em viajar que vai além do acúmulo de repertório, algo que modifica o homem e sua maneira de estar no mundo. Quem viaja encarna, ainda que provisoriamente, um ser incrível: interessado, paciente, livre de preconceitos e amoroso.

O mesmo indivíduo que vai para o aeroporto excomungando o trânsito e dando pontapés na própria mala, aterrissa do outro lado já incorporado pelo maravilhoso espírito de viajante. Arrasta a mala pelo metrô, pelos paralelepípedos, pela areia, escada acima... tudo sem reclames. É como se recebesse uma dose cavalar de energia, mesmo depois de horas intermináveis dentro de um avião. Afinal, ele já está quase lá, no destino almejado, e há muito com o que se ocupar além da mala. O viajante se compromete a apreciar todas as imagens que aparecem pelo itinerário, a começar pelos carros do congestionamento na saída do aeroporto. Dos pontos turísticos aos mendigos nas ruas, tudo merece ser olhado com atenção e, se possível, fotografado. A consciência do “diferente” lubrifica as pálpebras, ajusta os graus, limpa da lente ocular os pré-conceitos.

Há uma enorme beleza para ser admirada no cotidiano alheio, os viajantes de corpo e alma crêem. As crianças indo para a escola, os homens de negócio nas avenidas, as mulheres cansadas no metrô. O viajante sente desejo de conversar com todas essas personagens estrangeiras, embora raramente o faça, seja por timidez ou falta de recurso. Então distribui sorrisos gratuitos e, quando recebe uma piscadela de volta, sente-se como um infiltrado naquele excitante mundo novo. O viajante procura estabelecer essas conexões arriscando um diálogo onde quer que a oportunidade apareça: na porta do elevador, na fila do fast food, no banco da praça.  Para tal, ele logo se ocupa em aprender as palavrinhas mágicas no idioma do país que visita.  Já no primeiro dia está fluente no “por favor”, “obrigado”, “desculpe-me”, “bom dia” e “boa noite” e procura usar esse vocabulário com determinação, pois adora brincar que faz parte do lugar a que não pertence.  

“Determinação”, na verdade, é o segundo nome do viajante. Ele costuma ter metas bem definidas de lugares a se visitar. Não importa que tenha que atravessar meia cidade, escalar uma montanha, pegar duas balsas e subir 837 degraus. Cada gota de suor significa maior proximidade da chance de tirar aquela foto-fetiche que ficará para posteridade. A alegria do viajante aumenta proporcionalmente à sua canseira. Ele chega ao fim de cada dia absolutamente exaurido, com bolhas nos pés, e feliz. Haja otimismo! Aliás, tá aí uma coisa que não falta ao viajante: a capacidade de ver o lado bom de tudo. Ele debocha de si mesmo o tempo todo: pega o trem errado e tem uma crise de riso, toma chuva e posa pra foto molhado, fica perdido e tira uma selfie olhando com cara de interrogação para o mapa.


É mesmo uma pena que o espírito de viajante desencarna em território nacional, despedindo-se logo ali, nas esteiras onde as bagagens demoram tempo demais para aparecer. Que bom seria se conseguíssemos nos manter encarnados, com a mesma disposição para percorrermos nossos caminhos de cada dia. Que interessante seria permanecer com os olhos abertos, enxergando a beleza de tudo o que nos cerca. Que estimulante seria correr atrás dos nossos objetivos rindo das nossas próprias falhas nos obstáculos que nos separam da vitória. Que incrível seria se usássemos as palavrinhas mágicas e distribuíssemos sorrisos excessivamente. Que lindas seriam nossas relações afetivas, se nunca deixássemos de tentar estabelecer conexões, ainda que faltassem palavras para tal. Que ótimo seria para nós, todos de passagem nesta vida, se permanecêssemos constantemente abertos para o novo e maravilhados pelo fato de sermos diferentes. 



 Para os meus amigos que nasceram turistas no planeta Terra.