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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Matemática da Vida


Nunca fui muito boa em matemática. Com um pouquinho mais de sinceridade eu recomeço: sempre fui péssima em matemática.
Não sei bem quando os números brigaram comigo. Acho que sempre estivemos um pouco de mal um com o outro. Desconfio até que seja antipatia de nascença mesmo, alguma coisa a ver com cromossomo e essas coisas assim. O fato é que eu sobrevivi aos anos escolares tendo dores de barriga e calafrios nos dia de aula de matemática. Como eu me formei? Esse também é um mistério para mim, sendo que no meu arquivo de pendências eu ainda tenho que retomar a tabuada e, a partir daí, tudo mais o que tentaram me ensinar na escola.
Quem diria que depois de tanto tempo a matemática fosse se tornar uma coisa tão obviamente exata para mim. Sem muito esforço, hoje eu calculo que:
liquidação + cartão de crédito + parcelamento = (gasto)² - juros
mulher + filho = vida elevada à potência máxima
(bebê + fome) x (peito + leite) = (satisfação) ²
(cansaço).tpm  + sonho de valsa = (peso) ²
(peso)²  - tempo  = sonho de valsa – autoestima
½ autoestima  + fim de semestre = sonho de valsa + briga com o marido
marido + compreensão = parceria – sonho de valsa
parceria + beijo = amor
amor + tempo = post

Vivendo e aprendendo.
 E você, qual equação tem na ponta da língua?



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A festa de aniversário


A mamãe levou um susto
Ai que dor no coração!
A idade do “bebê” não mais se conta
Só nos dedos de uma mão.

Seis anos é boa hora
Para verdadeira comemoração
Corre a mãe para Vinte e Cinco
Em busca de promoção.

Tias, vovós e bisa
Engajam-se na produção
Tanto detalhe exige
numerosa participação.

Linha e agulha para todo o lado
Tudo feito à mão
Para ser criativo é preciso
Muita dedicação.

Cinco meses se passaram
De intensa preparação
E as contas aumentaram
Para horror do maridão.

Quase tudo pronto para festa
Uma perfeição!
Mamãe e filha ficam doentes
Só pode ser de excitação.

Para estragar a alegria
“chuva” disse a previsão
Mamãe fica louca acompanhando 
o clima pela televisão.

A família veio de longe
Vizinha emprestou colchão
Pai e padrasto na mesma casa
Quanta confusão!

Finalmente chegou o dia
Vamos todos pro salão
Fazer escova e unha
Para esconder a exaustão.

Nem o frio nem a garoa
Causaram chateação
As crianças brincaram
Como se fosse até verão.

O bolo estava lindo
Os doces, uma tentação!
Todo mundo elogiou
A trabalhosa decoração.

A linda aniversariante
Se encheu de emoção
Tudo aquilo era só dela
Parecia até uma ilusão.

Tanta gente alegre
Espalhada no salão
Como é bom celebrar a vida
Com quem mora no coração.





Não gosto de publicar fotos pessoais, mas acabei não resistindo. Precisava compartilhar pelo menos um pedacinho da festa com vocês. No blog da Tatiana Bonotto, a artista que fez o bolo e os cupcakes irresistíveis, tem mais algumas fotinhos.  ;-)

Fotos by Larissa

sábado, 11 de setembro de 2010

Refúgio Cosmético-Materno


Depois de ter passado da fase de deixar o bebê dentro do chiqueirinho hipnotizado pelo Baby Einstein ou de levar a criança na cadeirinha para o banheiro e ficar jogando água contra o box para entretê-lo, a hora do banho finalmente passou a ser um momento meu, egoísticamente falando.  

Não dá pra ir ao salão, não dá para ir a academia freqüentemente, não dá para passar o dia de pernas para o ar lendo um livro. Mas tomar banho é necessidade básica de higiene. Tomar banho tem que dar. E o melhor: todos os dias!

Ficar trancada no banheiro é o que mães podem fazer sem culpa. O que mamãe está fazendo? Não, ela não está negligenciando sua cria. Está tomando banho, ué. Depois de descoberto esse refúgio espiritual cresceu em mim uma avassaladora paixão por cremes, xampus, esfoliantes e, porque não, pastas de dentes.

No chuveiro fica difícil escolher uma das várias opções de xampu.  Apesar de só ter uma cabeça, há um produto para cada tipo de cabelo: lisos luminosos, cachos rebeldes, ondas glamour, cor estonteante. O que importa mesmo na hora de escolher o xampu é a fragrância. Tem dia que estou mais para coco com lima, outro dia para baunilha ou chocolate. Depende do estado de espírito. Quando não consigo decidir, vão  os dois mesmo. 

Os sabonetes também causam polêmica. Eucalipto ou Orquídea-gotas-de-beleza? Aroma-relax-pele-dos-sonhos ou efeito-iluminador? Isso tudo, é claro, para ser conjugado com o sabonete esfoliante, que se encaixa em outra categoria que não a dos sabonetes, apesar do nome.  Aí não há dúvida porque sou fiel a ele, o único e absoluto esfoliante de Açaí. Tão cheiroso, mas tão cheiroso... que eu tive que experimentar com uma lambidinha. (Não recomendo).

Depois do banho vem a melhor parte: a sobremesa. Um mosaico de frascos coloridos enfeita a pia. Dois ou três óleos e uma infinidade de hidratantes. Tem o próprio para os pés, joelhos, pernas, culotes, mamas, ombro-e-pescoço, rosto e área dos olhos. E não importa quantos hidratantes você tenha, sempre há um lançamento que você quer muito ter. Essa insatisfação  permanente me leva a, às vezes, dar uma de Xuxa em comercial da Monange e usar muito, mas muito creme de uma só vez. Isso quando não acabo passando o creme de marcas de expressão no joelho e calcanhar para me livrar dele mais rápido. A alegria de jogar um frasco vazio no lixo é quase tão grande como a de trazer um cheio e novinho em folha para a família.

Futilidade ou não, meus queridos cosméticos cuidam de mim como eu cuido da minha casa, dos meus alunos e da minha família. Inverter a ordem dos fatores é uma deliciosa terapia.


sexta-feira, 11 de junho de 2010

Criando Laços Paulistanos


Dá, sim, para viver sem amigas.

É fácil guardar as frustrações só para gente. Quando apertar basta ler um livro, ver um filme triste e desabafar.

Ninguém precisa ficar ligando todos os dias para outra pessoa exclusivamente para comentar qual receita deu certo, qual promoção encontrou, qual cor de cabelo você adotou. Essas futilidades não têm absolutamente NADA a adicionar na vida de alguém.

Só quem não tem opinião própria precisa de uma amiga para ir ao shopping e palpitar sobre exatamente tudo o que você olha. E espelhos existem nos provadores para suprir a falta de amigas julgadoras do que vestiu bem e o que não ficou legal.

Amigas distraem nossa atenção. Tiram nosso foco. Não dá para correr na esteira da academia nem para fazer economia. Porque amiga sempre tem história para contar e liquidação para indicar.

Além do que, vivendo sem amigas, você precisa cuidar só dos seus problemas. Você pode continuar achando que a sua história é única, que seus dramas são os maiores e suas tristezas mais profundas.

Dá, sim, para viver sem amigas.
Mas ainda bem que eu tenho as minhas.

 

Gabi, é muito bom ter você por perto. Parabéns pelo seu dia!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Memórias de uma gravidez conturbada: a hidroginástica.


O tempo foi passando e os ponteiros do relógio pareciam ficar mais pesados, assim como eu. Os minutos se arrastavam em círculo e, não tendo mais o que fazer entre meus intervalos de choro, eu comia.


Nos primeiros meses eu apenas aumentei as porções do dia. Em vez de duas colheres de arroz eu já começava com quatro. Depois as porções ficaram tão grandes que precisavam ser divididas em dois ou três pratos. Certo dia, quando eu partia para o quarto prato de bobó de galinha com arroz e batata palha, meu irmão segurou minha mão indignado. De acordo com ele o meu estômago estaria tão dilatado que o espaço para o bebê dentro da minha barriga diminuía a cada garfada. Ele temia pela vida de um bebê esmagado pelo bobó de galinha.


Não com muito entusiasmo, fiz a minha inscrição na hidroginástica. Achei um maiô preto no fundo da gaveta da minha mãe que ficou perfeito. Com a lycra brilhante a la anos 80, eu parecia uma orca ao contrário: barriga preta reluzente e costas e membros brancos. Praticamente a Shamu. Olhei para baixo para averiguar o estado cabelístico da minha virilha. Contudo, só o que consegui avistar depois daquela imensa barriga era a ponta dos meus dedos do pé. “Ótimo”, pensei. Aquela velha história de que o que os olhos não vêem o coração não sente.


A sala cheirando a cloro era relaxante por si só. Eu poderia pegar no sono ali mesmo, na arquibancada. Infelizmente a professora notou a aluna nova (não sei porque eu pensei que tudo aquilo que era eu poderia passar despercebido, mas enfim...) . Fui apresentada ao grupo de sessentonas atléticas. Todas sorriram simpaticamente. Pelo visto não tinha como eu escapar.


Caminhei em câmera lenta até a beira da piscina com medo de aquaplanar nas poças de água até que cheguei à escadinha. Olhei bem para aquelas frágeis estruturas de alumínio e preferi sentar na quina da piscina, com uma nádega em cada um dos lados. Estiquei meu braços e lancei-me na piscina olímpica causando um mini tsunami que chegou até a outra margem sem grandes danos.


Ao contrário do que eu imaginava, a aula de hidroginástica não era nada relaxante. Logo nos primeiros dez minutos eu já estava cansada o suficiente para dormir uma semana inteira. E depois de duas ou três aulas a professora também não estava tão mais paciente com minhas limitações e me mandava boiar toda vez que o exercício proposto era abdominal. Não que eu achasse ruim. Muitas vezes ela se esquecia de mim e eu continuava boiando pela piscina a aula inteira num estado de semi-sono. De vez em quando eu colidia com algum aluno e levantava assustada percebendo que eu ainda estava na academia, e não flutuando entre as nuvens. Pedia desculpas meio sem graça, dava uns pulinhos para trás e voltava a boiar sem nem olhar se o exercício abdominal tinha acabado ou não.


Da segunda semana em diante a rotina estava estabelecida: tsunami, boiada, guindaste para fora da piscina, casa, geladeira, cama. Os três meses de hidroginática me renderam ótimas tardes de sono, um apetite ainda maior e, é claro, um cabelo desidratado.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Muito na cabeça, nada na barriga.

Chega de ser diferente. A próxima gravidez será o mais careta possível. Vou começar o pré-natal antes mesmo da concepção, calcular horário da ovulação, escolher o signo do bebê e todas essas coisas. Nada de sustos (ou seria pânico?), nada de pessoas desmaiando com a notícia ao telefone, nada de surpresas. E eu bem sei que a hora certa ainda não chegou. Falta sair do aluguel, falta terminar o mestrado, falta uma babá de confiança, falta o salário aumentar, falta isso e todos aquilos. E porque não sou mais desavisada, previno.

Mas aí passa um dia, passa outro, e outro. Uma semana inteirinha, duas... e quando chega na terceira eu não consigo mais evitar que minha mente criativa entre em ação. Rafael ou Daniel? Quanto está custando um carrinho de passeio? Www.babiesrus.com. Tenho que passar o escritório para o quarto de empregada. Minha sogra vai desmaiar (de alegria)! Opa, estou um pouco enjoada... Que sutiã apertado! Rafael é melhor.

Se em outras épocas eu postergava ao máximo um exame de farmácia por motivos de desespero total, dessa vez fiquei bem quietinha, só para poder curtir minha quase gravidez junto com meus pensamentos. E quando não pude mais me iludir, passei o dia debaixo das cobertas, chorando de saudades.

Papai do céu, depois de nossos tantos encontros você deve estar me achando uma maluca. Não sou bipolar. Mas se você resolver me dar uma surpresa como aquela de cinco anos atrás, eu pro-meto que dessa vez não brigo com você nem uma vezinha.



* Ilustração: Ana Oliveira
 

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Metamorfoses Cabelísticas


Sempre achei que meu cabelo deveria acompanhar meus momentos de vida. Tudo isso começou, até onde eu me lembro, quando tive minha primeira paixão de verdade. Era meio estranho olhar no espelho e ver a mesma pessoa de sempre, sendo que por dentro eu era tão cheia de novidades. Resultado: luzes.

E assim aconteceu quando mudei de país e deixei minhas longas madeixas semilouras por lá. Imagina se depois de tudo que vive eu iria voltar assim, com a mesma cara do dia do embarque.

A gravidez rendeu um micro-quase-chanel-com-repiques, o que combinava bem com a confusão emocional que eu experimentava naquela época.

Quando minha filha nasceu eu bem que precisava ficar careca, e quem sabe dar uma de Michael Jackson às avessas e mudar de cor de pele também. Saí do hospital outra pessoa e minha aparência só não refletia tamanha mudança porque eu estava ocupada demais sendo mãe para pensar em salão de beleza. Mulheres que viram mães deveriam mudar até de CPF.

Não por coincidência minha filha, pela primeira vez em cinco anos, se vestiu sozinha para a escola, arrumou a mochila, almoçou sem ajuda e escovou os dentes sem que eu tivesse que persegui-la pela casa exatamente no mesmo dia em que trocou os cabelos longuíssimos de sempre por um chanel de boneca. Foi para o salão decidida e sem piedade. Voltou com um espanador de cabelo na mão e a nuca à mostra, feliz da vida, parecendo outra pessoa.

Será que virou mocinha?





*ilutração: Patricia Ariel

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Matryoshka

Tudo era bem fácil quando eu só precisava ser filha. Eu e minha mãe nos dávamos muito bem e éramos grandes companheiras. Mais que isso, éramos melhores amigas e inseparáveis. Mas aí veio o primeiro namorado que tirou sabe-se lá de onde um eu-namoradeiro, rebelde e sem juízo que vivia em pé de guerra com a filha que eu adorava ser. Enquanto uma queria ir para as baladas a outra queria ficar bem aconchegada no ninho materno. E se duas de mim já me deixavam louca, imagina quando as outras vieram?

Na mesa de cirurgia a obstetra tirou um bebê e uma mãe de dentro de mim. Essa tal mãe simpatizava com aquela antiga filha, mas era um pouco displicente com a namoradeira. Pra ser bem sincera, essa mãe era um bocado egoísta: não gostava que eu desse atenção para as outras partes de mim. E durante a licença maternidade eu e a nova mãe que passei a ser nos demos muito bem. Mas com o tempo eu tive que reatar a amizade com a namoradeira e a filha. E te digo que não foi nem um pouco fácil. A mãe sofreu demais, coitada. Mas a vida continuava e não dava mais para ser só uma.

Corajoso foi o marido, que ainda conseguiu pintar uma esposa no meio dessa turma toda. E com a esposa ainda apareceu a dona de casa, rainha do lar, que nas horas vagas é professora.

Tantas pessoas dentro de mim acabam me deixando um tanto confusa. Às vezes eu me troco: sou filha quando devia ser esposa, sou mãe quando devia ser professora... é uma bagunça danada. Quantas vezes não me peguei na frente de quarenta alunos, com outros olhos, vendo-me com estranheza? Quem era aquela ali?

No tira e põe de tantas máscaras é fácil ir me esquecendo. É claro que todas essas mulheres também são autênticas e são parte de mim. Mas há um eu que só eu mesma conheço, aquela última boneca matryoshka, aquele miolo íntimo que sustenta todas as outras faces de mim mesma. E é preciso muito jogo de cintura para não se perder para sempre.


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Rainha do Lar


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Quando era criança e tentava me projetar no futuro, enxergava uma mulher independente e muito bem sucedida. Marido e filhos (ou filhos e marido) não eram fatores constantes nos meus sonhos de mulher adulta. Fruto de uma geração de feministas, eu era muito bem consciente do meu potencial e dos meus direitos.

Aos dezessete anos arregacei as mangas e fui construir o meu império. Saia do colégio e ia para o trabalho com a disposição de uma formiga operária. Eu estava no caminho certo para a mulher adulta que eu pensava em ser.

Os anos foram passando e o salto alto começou a incomodar. Quando a barriga cresceu e meu corpo me obrigou a lembrar da minha condição de mulher, percebi que o percurso para a antiga projeção de mim mesma não seria tão fácil.

Abracei a maternidade de corpo e alma e automaticamente me vi sonhando em ser dona de casa, em esquecer a carteira de trabalho no fundo da gaveta para sempre e me dedicar ao meu bebê sem restrições de tempo.

E porque sou uma mulher de sorte, casei, mudei de cidade e por força das circunstâncias me vi em casa tempo integral, com uma filha linda para criar, uma casa para cuidar e um marido para amar. Plano-Amélia concretizado.

Mas os dias passavam sem que a pilha de roupas para passar acabasse, sem que a pia esvaziasse, sem que a fome da família se satisfizesse. Humana e insatisfeita por natureza, comecei a sentir saudades do trabalho, em ter meu próprio dinheiro... e o horror às tarefas domésticas foi crescendo. Afinal, não há trabalho mais ingrato no mundo, certo?

Errado.

Antes de ir para o time das feministas outra vez, parei para pensar se o trabalho doméstico é realmente “invisível”, como dizem por aí, por não ser reconhecido. Tudo bem, o marido pode até não perceber que você caprichou na faxina, o filho pode até não ter piedade quando chega da escola e bagunça tudo. Você pode ficar com a unha lascada e sem salário. Mas há, sim, senhoras e senhores, dignidade em cuidar do lar.

Afinal, o lar não é uma casa qualquer. O lar é onde moram as pessoas que você mais ama. Amor implica cuidado. O lar é onde sua família se (re)unirá, todos os dias, para ser família. A casa que não tem comida nem aconchego não congrega, manda cada um para um lado diferente.

Há, sim, um certo gostinho, em ser a única que sabe onde todas as coisas estão, o que precisa ser comprado e o que dura até semana que vem. Ter o controle total da casa, domesticá-la, não é tarefa fácil. Se você conseguiu, não se sinta explorada porque o marido não sabe onde fica o papel higiênico. Sinta-se orgulhosa.

Porque é você quem vai olhar para trás na velhice e ter a certeza, mesmo que seja a única em tê-la, de que foi a arquiteta e o peão-de-obra daquele império mais que especial: a sua família.


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Injustiça

Apesar de sábado, acordei cedo porque queria terminar de ler meu livro em paz, antes que a casa acordasse. É certo que com o baile à noite eu deveria dormir um pouco mais. Afinal, já estou bem desacostumada com noites badaladas. Acordei assim mesmo.

Um cafezinho formaria um bom par com a leitura, mas qual foi meu desgosto quando chego na cozinha e me lembro pelo cenário encontrado da louça esquecida da noite anterior. Livro e café abandonados, bucha e detergente entram em ação.

O barulho dos pratos e copos desperta a filha, que logo pede sua mamadeira. Criança alimentada, resolvo trocar de roupa e ir ao supermercado (já que o plano de ler em paz foi por pia abaixo).

Bem humorada, escolho tudo para levar mais por menos, economizando bem o dinheiro do marido. Caixa, casa, cozinha, avental verde da vovó. Depois de uma semana estressante a família bem que merece um almoço especial feito com muito carinho.

Dessa vez, para não ter desgosto, lavo tudo antes mesmo de colocar a comida na mesa. Comemos todos com muita satisfação: eles pela comida, eu por agradá-los. O papo se estende e quando dou por mim já são três da tarde.

Tiro a mesa, lavo o que sujamos (terceira leva de louças lavadas) e finalmente pego a maleta de esmaltes para fazer a unha. Quero ser a esposa mais linda entre os colegas de trabalho do marido que lá estarão.

Filha rouba um esmalte para imitar a mãe. Esta borra as unhas tentando limpar as daquela. São dezessete horas no relógio.

Unhas finalmente feitas, começo a procurar os vestidos de festa no fundo do armário. Vê-los tão lindos me anima. Escolho um e vou passá-lo.

Antes da babá chegar dou banho na filha e esquento seu jantar. Marido entra no banho antes de mim.

Dezenove horas entro no banho, saio para atender a porta. Babá chegou. Agora com alguma folga, vibro de prazeres por poder me dedicar à maquiagem e ao cabelo.

Marido chega com camisa amarrotada para passar. Deixo a chapinha pela metade e vou de encontro com seu primo, o ferro elétrico. Alguns minutos depois volto ao banheiro e sou avisada de que em vinte minutos estaremos saindo para a festa. Ele, obviamente, está descansado, engomado e cheiroso.

Não fosse a minha própria imagem estar em jogo, iria assim mesmo: descabelada e desmaquiada, só para encher o marido de vergonha.

Quando o interfone toca estou a cinco minutos de estar razoavelmente pronta. Se a filha não tivesse percebido a saída iminente dos pais e começado um berreiro de partir-corações, diria até que teria chegado no carro da carona sem suspeitas de atraso.

No elevador, ainda escutando os soluços da filha e segurando as próprias lágrimas para não borrar a maquiagem, lembro do perfume que deixei de passar. E eu achando que seria uma daquelas noites de Cinderela, das cinzas para o luxo. Penso no meu livro e na promessa do café e sinto saudades. Talvez fosse melhor nem ir.

Entro no carro e escuto as desculpas dadas à carona pelo companheiro: “Você sabe como as mulheres são enroladas para aprontar.”



terça-feira, 11 de agosto de 2009

Gafes Domésticas II : A Panela de Pressão


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Já havia se passado dois meses desde o casamento e a caixa da panela de pressão continuava intocada. Só foi depois de constatar que os níveis de ferro no sangue da minha família estavam baixíssimos que eu resolvi enfrentar a fera e fazer feijão.

Power. Login. Senha. Firefox. Google. Receitas de feijão.

Nenhum mistério. Agora só faltava pegar a caixa no fundo da prateleira mais alta do armário, abri-la, ler as instruções e mãos à obra. Eu disse manual de instruções? Pois bem, a panela não vem com manual de instruções. Essa empresa deveria ser processada por colocar tantos lares em risco. É como comprar uma arma de fogo sem instruções, ou será que essa é mais uma daquelas coisas que a gente deveria nascer sabendo?

Telefone. 031... Mami não atende.
035... Telefone fora do gancho na vovó.
031... Sogra. Finalmente alguém atendeu. Ela, horrorizada pela minha coragem, disse nunca ter lidado com uma panela de pressão. Desejou-me boa sorte e desapareceu da minha casa com um fone no gancho.

Oh meu Deus... e agora? Brasileira, continuei:
031... BINGO! Acabei ligando para a mãe de uma amiga que por sorte já era faixa preta em questão de panela de pressão. Passou-me as instruções que eu repeti várias vezes para não esquecer: água até o preguinho, borrachinha no lugar, fechar bem fechadinho e pronto.

Realmente não tinha grandes mistérios. Tirando, é claro, a parte de colocar a tampa dentro da panela, que me custou uns quinze minutos e alguns palavrões. Depois de muita luta para tentar fazer a tampa entrar num buraco menor que ela, puft, ela entrou sem que eu fizesse força. Parecia até piada e deu quase para ouvir a panela rindo da minha cara.

Superado o obstáculo da tampa, senti-me confiante e pronta para o desafio. Segui as instruções (preguinho-borrachinha-fechadinho) com muita calma e assim que eu liguei o fogo, para meu alívio, nada aconteceu.

E nada continuou acontecendo pelos próximos minutos. Foi então que o terror começou. Eu parecia ter um trem a vapor dentro da cozinha. A panela tremia e soltava fumaça, rancorosa e pronta para explodir em cima de quem quer que cruzasse seu caminho.

Minha vontade era de deixá-la em paz e nunca mais entrar na cozinha até que o gás acabasse ou coisa parecida. Mas de acordo com o www.tudogostoso.com.br, já era hora de desligar o fogo e eu simplesmente teria que ser forte e equilibrada o suficiente para resolver este assunto.

Só por precaução, levei minha filha para o quarto dela e liguei um desenho para segurá-la por lá. Olhei para ela, tão linda, e senti meu queixo tremer. Dei um beijo ligeiro na cabeça dela e aproveitei para sentir o cheiro do seu cabelo. Sai antes que ela percebesse que uma tragédia estava preste a acontecer.

Abri o escritório do meu marido, vi todas as suas coisas e senti um amor profundo por ele.

No caminho de volta, peguei o almofadão da sala, respirei fundo e entrei na cozinha com meu escudo fofo em direção ao fogão. Agora era a hora.

Minha testa suava e meu corpo tremia de adrenalina, acompanhando o tremor da panela que estava ainda mais escandalosa, bufando de raiva. A essa altura o pobre feijão lá dentro já devia ter se dissolvido inteiro. Prendi a respiração, estiquei minha mão e depois, em câmera lenta, meus dedos (encapados com luva de borracha). Apertei meus olhos consciente de que qualquer mosca que passasse por ali seria o suficiente para a panela perder sua paciência. Em fração de segundos eu não só tinha desligado o fogo como já estava do lado de fora da cozinha, jogada no chão do corredor, escondida atrás do almofadão.

Num gesto de quem quer fazer a pazes, a panela foi baixando o tom, parando de rebolar, aquietando, até soltar um último suspiro baixinho e dormir.

Eu mal podia acreditar. Eu tinha vencido a batalha! Eu era a rainha da cozinha e as panelas eram todas minhas súditas.

Corri para os braços da minha filha, ainda assistindo desenho e a enchi de beijos. Saí pulando pela casa me sentindo mais poderosa do que nunca.

Naquele dia almoçamos caldo de feijão.
Desde então os níveis de ferro da família permanecem espetaculares.



segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quinta-feira


Sempre tive pavor à feira. Desde pequena, quando minha mãe me carregava dentro do carrinho de compras e me prometia qualquer guloseima que tivesse lá, que definitivamente não eram muitas, eu odiava o programa. Feiras e afins eram sempre feias, sujas, cheias de tomate podre no chão e folha de alface pisoteada.
Para tentar me entreter, mamãe me concedia a honra de escolher batatas ou cenouras. Arrasada eu ia até a banca, pegava algum saquinho (desses que sempre estão molhados, sabe-se lá porque) e começava a escolher os legumes com as pontinhas dos dedos com medo de que alguma larva ou inseto qualquer viesse me surpreender. Além do que era sempre difícil saber se estava escolhendo certo: ora o legume tinha que ser mais durinho, ora mais molinho... e eu simplesmente não entendia nada daquilo e fazia qualquer coisa para esperar dentro do carro.
Os anos se passaram e logo na primeira semana de casada fui despertada às cinco da manhã com uma barulhada em baixo da janela do meu novo apartamento. Indignada com esses paulistas que não se cansam de trabalhar, abri a janela e me deparei com uma longa e colorida feira se esticando por toda a minha rua.
Engajada em ser boa mãe e esposa, resolvi descer para comprar algumas coisas saudáveis para o almoço. Foi então que tudo mudou.
É completamente diferente fazer a feira quando é você quem vai lavar, descascar, preparar e comer os legumes e verduras. De repente eu percebi aquele cheirinho de fruta fresca que minha mãe tanto gostava. Fui andando e comprando um brócoli ninja aqui, uma banana nanica acolá e quando percebi já estava com os braços gangrenados de tanta sacola. Sorte a minha de morar a apenas alguns passinhos dali. Voltei para casa, recarreguei o meu bolso como quem recarrega uma espingarda e voltei para a caça.
Digo “caça” porque não é nada fácil se dar bem na feira. Você tem que farejar o melhor bando, localizar a melhor presa e correr antes que outra caçadora chegue na sua frente. Neste processo muitos pés sujos de tomate são pisados, ombros chocados... mas tudo vale na lei da feira.
Lá pelas dez da manhã o sol com a ajuda das panelas de óleo das barraquinhas de pastel fazem das lonas coloridas uma verdadeira estufa. É aquele calor insuportável, é batata rolando no chão, é gente se esbarrando, é feirante aos berros cantando seus jingles “Pra ficar legal, a bacia é um real”... Se tivesse areia e cerveja juro que daria pra confundir com um show de axé.

domingo, 31 de maio de 2009

Mulher em construção

Dizem por aí que você é o que você veste, idéia que tem me deixando um tanto quanto preocupada.


Freqüentemente me perco em meio aos adolescentes que saem em bando das escolas na hora do almoço. Com meus tênis e calça jeans eu poderia muito bem me passar por um deles.


Sou formada, pós-graduada e casada. Tenho uma filha de quatro anos. Moro longe da família e não sei quem são os protagonistas da Malhação há anos! Acho que já passou da hora de reformar a fachada do meu “novo eu”, já que o interior foi inteiramente re-decorado.


Considerando que jeans é uma peça básica, resolvi começar fazendo uma limpa nos meus sapatos. Imagine o ressentimento do meu velho Adidas quando cheguei em casa com um peep toe de verniz da Zara. Um definitivamente não foi com a cara do outro.De qualquer forma, tiveram que dividir o armário.


No dia seguinte levantei e mesmo que não tivesse que ir trabalhar nem fazer nada de especial, calcei minha nova aquisição e fui levar minha filha para escola. Realmente um par de sapatos faz toda a diferença. Aquela sim era uma verdadeira mãe-de-família.


Dois quarteirões depois eu já estava quase doando meus sapatos para o primeiro mendigo que aparecesse. Bolhas nos calcanhares, dedos amassados... um horror. Cheguei em casa e, apesar de nem olharem na minha cara, sei que os Adidas ficaram alegres e devem ter tirado o maior sarro dos sapatinhos da Zara.


Foi então que outro dia, usando meus tênis, entrei em uma loja de sapatos em mais uma tentativa de encontrar alguma coisa adulta, porém confortável. Qual foi o meu choque quando a atendente destrancou uma gaveta nos fundos da loja e me mostrou uma série de palmilhas e adesivos para protegerem os pés dos sapatos de salto. Então era isso! E eu que achava que essas mulheres que fazem cooper em cima de um nove centímetros tinham uma genética diferente ou coisa do tipo.


Por que ninguém nunca compartilhou esse segredo comigo? Aposto que se meu amigo gay usasse salto alto ele já teria me dado essa dica. Mulheres...