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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Casa longe de Casa


Comecei a sofrer com o dia do casamento por volta dos meus sete anos. Seria eu capaz de viver longe das sardas da minha mãe? Eu bem sabia que não e, se o casamento fosse algo irremediável, já estava decidido: seria vizinha da minha própria família. Talvez a preocupação precoce já antecipasse o fato de que eu, com uma aliança no dedo, estaria bem longe de tudo o que me é familiar. 

Que surpresa eu tive quando percebi o valor da distância. Enxergar o mundo assim, só com o meu par de olhos, foi uma experiência reveladora. Será que eu teria me entendido esposa se estivesse acompanhada dos olhares pesados de quem conhece todo o meu passado? O fato é que tivemos todo o tempo e a liberdade para nos reinventarmos como uma nova e única família. Como foi bonito construir nosso ninho assim, dos nossos próprios vôos solitários. 

Quando a família vem de longe nos visitar me encho de alegria e orgulho. Exibo meu território recém-conquistado como uma menininha ao mostrar a nota dez da prova para os pais depois da escola.  E aí vou me impregnando de mim mesma, vou me aconchegando debaixo das confortáveis asas maternas.

Bem na hora em que relaxo as rédeas da vida que conduzo sozinha chega a hora da despedida. E então dói como da primeira vez. Serei eu capaz de viver longe das sardas da minha mãe? Com aquele excesso de razão que os adultos carregam, eu bem sei que sim. 


Gostaria de aproveitar o post para agradecer o presente que ganhei da Mariana no sorteio que ela fez lá no Mãe da Rua. Recebi um kit de adesivos da Names2Glue que de tão lindos ainda não tive coragem de usar. Obrigada, Mariana! ;)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Férias sem filhos


Vivi a primeira semana de maternidade anestesiada pela emoção de ser mãe. Não me lembro das dores do parto, que a essa altura já nem sei mais se de fato existiram. Os dias eram marcados não mais pelo ir e vir do sol, mas pelas mamadas e choros que logo se dispuseram em rotina. Foi quando no segundo sábado depois do nascimento da minha filha acordei com o já esperado choro da madrugada. Mas ué? Não é sábado? Então me dei conta de que tinha assumido uma tarefa sem fim, a qual eu cumpriria pela vida toda, sem recessos.
O tempo, amigo camarada, apresentou-me o costume que me deixou assim, acostumada. Parei de fazer as contas das quantas repetidas vezes trocava fraldas, entendi que tudo bem se não recebesse um muito obrigado depois de levantar no meio de uma noite de inverno para fazer uma mamadeira. Aliás, descobri o significado das palavras incondicional e altruísmo. E de tanto que o tempo, o costume e eu andávamos juntos, ficou até estranho pensar na vida antes da maternidade. O que será que eu fazia com tanta liberdade?
Quase seis anos depois resolvemos me dar férias. Dez dias para eu fazer seja lá o que for que eu fazia antes de ter um filho. Vai ser bom, concordamos sem que eu entendesse o porquê daquele nó na minha garganta. Vejo minha pequena no taxi indo embora com a vó, as duas felizes da vida. Meu sorriso agüenta só até a esquina. A dor é tão grande que vira lágrima, penetra os músculos, rompe os nervos.
Todos os livros que eu leria, os trabalhos que adiantaria, os cinemas que assistiria, as caminhadas que faria, todos os planos se transformam em um par de olhos mirando o teto e um grande vazio na existência. Concluo que devo ter sido muito infeliz até ser mãe.
E o danado do tempo aparece de repente e agora me traz a novidade. Alegre novidade que se acomoda nos buracos vazios que cavou a falta. Tomamos, eu e Ele, uma dose cavalar de romance e conseguimos, depois de um impensável esforço, aproveitar plenamente nossas férias. E como foi bom... Trouxemos na mala um punhado de ânimo e uma coleção de saudades transformadas em presentes.
E assim vou percebendo, mais uma vez, que tudo tem seu tempo e seu preço.  


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pieguices Verdadeiras

Na manhã do nosso casamento, quando foi me dada a oportunidade de discursar, só consegui dizer “obrigada”. A emoção havia ocupado o espaço das palavras. Espero que não se importe pelo quase um ano e meio de atraso, mas gostaria de terminar o que comecei naquela ocasião.

Obrigada por ter me escolhido 
quando tinha todas as mulheres do mundo para escolher.

Obrigada por ter visto minha beleza, 
sem dar importância para as marcas da minha história.

Obrigada por abrir seu coração livre de preconceitos. 
Obrigada por ser tão naturalmente pai.

Obrigada por compartilhar sua família comigo. 
Obrigada por ser você minha família.

Obrigada por me mostrar um futuro tão bonito. 
Obrigada por querer fazer parte dele.

Obrigada por compreender minha maternidade. 
Obrigada por admirá-la.

Obrigada pelas mãos dadas. 
Obrigada pelo cuidado. 
Obrigada pelo carinho.




A partir deste mês estarei quinzenalmente na MUNDO MUNDANO com textos do “Mãe-Solteira Recém-Casada” e outros inéditos. Este é um dos primeiros frutos que o blog me rendeu, portanto nada mais justo que compartilhar a novidade com vocês que me sustentaram até aqui. Acessem a revista e divulguem se acharem que vale a pena.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fidelidade In


Talvez tenham sido os contos-de-fada… mas viver um relacionamento real tem me mostrado que eu estava bastante enganada sobre muitas coisas a respeito do amor. Por exemplo: a fidelidade.

Acreditava que depois de achar a pessoa certa pra mim tudo estaria resolvido. Era botar a aliança no dedo e automaticamente o Brad Pitt perderia os dentes, o Jude Law ficaria vesgo e por aí vai. Doce engano. Mesmo depois do casamento pessoas bonitas e bacanas continuam existindo. E o pior: mulheres bonitas e interessantes também.

Se durante o namoro quase não havia ciúme, com o casamento as coisas se agravam. Em vez de dar segurança, a institucionalização do relacionamento te alerta: cuide do que é seu, porque agora sim você pode dizer que ele é SEU marido, de papel passado e tudo.

E assim, aquele amor que combate dragões, bruxas e madrastas acaba se tornando uma coisa bem mais frágil do que se pode imaginar. Como um vaso de cristal finíssimo, é preciso carregar o casamento com as duas mãos e muita atenção e sutilezas.

Com príncipes e princesas soltos por aí, pode saber: não, o mundo não irá conspirar a favor da sua fidelidade quando você decidir que ama alguém. A fidelidade depende exclusivamente de você e do seu trabalho. Ser fiel não significa que você estará entorpecida de amor depois de um passe de mágica feito pela fada madrinha.  Muito pelo contrário, ser fiel significa estar sempre consciente da sua própria escolha. É preciso muita maturidade para amar de verdade.

E o engraçado de tudo isso é que depois de enxergar o amor tão exigente de cuidados, ele fica de tal forma bonito que se torna um pouco mágico. Parece até coisa de conto-de-fada. Ah, o amor...

 

Ilustração: Ana Oliveira

domingo, 10 de janeiro de 2010

Em casa

Depois das duas primeiras horas é humanamente impossível manter a atenção em uma palestra. Um devaneio aqui e uma pescada acolá são naturais num auditório cheio em uma tarde quente de sábado. Entre uma palestra e outra a gente aproveita para mudar de lugar, molhar a garganta... estabelecendo diálogos curtos e superficiais na fila do café, na fila do banheiro, na porta do auditório. E não importa quão interessante seja a jornada, depois de sete horas o cansaço começa a incomodar, porque só ouvir também cansa demais. Então as cadeiras perto da porta dos fundos começam a ser mais disputadas. Sentada lá trás, entre uma idéia e outra, começo a me asfixiar pela quantidade de desconhecidos que me rodeiam. Observo aquelas dezenas de feições tão indiferentes à minha existência e alheias à minha história que eu mesma começo a esquecer quem sou. A gente se esquece um pouco ao não existir para o outro. De repente não lembro nem porque estou ali e começo a achar o português do palestrante um tanto quanto grego. Sem ensaiar a saída, levanto-me de supetão e corro em direção à porta. Saio sem olhar para trás. Corro em direção ao ônibus e apesar dos vários assentos vagos, permaneço em pé, tamborilando os dedos ansiosos na barra de ferro. Antes de completamente freado, salto do ônibus e opto pelas escadas, as quais subo com passos largos. Abro a porta e corro para os braços do meu marido. Olho pra ele e lembro que não estou sozinha, que no meu time jogam mais jogadores. Lembro dos meus sonhos, dos nossos planos, da nossa história. Sinto muito amor. Reconheço-me.






Lindo, obrigada por jogar no meu time. Juntos já somos vencedores e nem precisamos de torcida. Que este jogo da vida dure por toda uma eternidade, porque não há nada melhor que jogar ao seu lado. Feliz aniversário para gente!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Rainha do Lar


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Quando era criança e tentava me projetar no futuro, enxergava uma mulher independente e muito bem sucedida. Marido e filhos (ou filhos e marido) não eram fatores constantes nos meus sonhos de mulher adulta. Fruto de uma geração de feministas, eu era muito bem consciente do meu potencial e dos meus direitos.

Aos dezessete anos arregacei as mangas e fui construir o meu império. Saia do colégio e ia para o trabalho com a disposição de uma formiga operária. Eu estava no caminho certo para a mulher adulta que eu pensava em ser.

Os anos foram passando e o salto alto começou a incomodar. Quando a barriga cresceu e meu corpo me obrigou a lembrar da minha condição de mulher, percebi que o percurso para a antiga projeção de mim mesma não seria tão fácil.

Abracei a maternidade de corpo e alma e automaticamente me vi sonhando em ser dona de casa, em esquecer a carteira de trabalho no fundo da gaveta para sempre e me dedicar ao meu bebê sem restrições de tempo.

E porque sou uma mulher de sorte, casei, mudei de cidade e por força das circunstâncias me vi em casa tempo integral, com uma filha linda para criar, uma casa para cuidar e um marido para amar. Plano-Amélia concretizado.

Mas os dias passavam sem que a pilha de roupas para passar acabasse, sem que a pia esvaziasse, sem que a fome da família se satisfizesse. Humana e insatisfeita por natureza, comecei a sentir saudades do trabalho, em ter meu próprio dinheiro... e o horror às tarefas domésticas foi crescendo. Afinal, não há trabalho mais ingrato no mundo, certo?

Errado.

Antes de ir para o time das feministas outra vez, parei para pensar se o trabalho doméstico é realmente “invisível”, como dizem por aí, por não ser reconhecido. Tudo bem, o marido pode até não perceber que você caprichou na faxina, o filho pode até não ter piedade quando chega da escola e bagunça tudo. Você pode ficar com a unha lascada e sem salário. Mas há, sim, senhoras e senhores, dignidade em cuidar do lar.

Afinal, o lar não é uma casa qualquer. O lar é onde moram as pessoas que você mais ama. Amor implica cuidado. O lar é onde sua família se (re)unirá, todos os dias, para ser família. A casa que não tem comida nem aconchego não congrega, manda cada um para um lado diferente.

Há, sim, um certo gostinho, em ser a única que sabe onde todas as coisas estão, o que precisa ser comprado e o que dura até semana que vem. Ter o controle total da casa, domesticá-la, não é tarefa fácil. Se você conseguiu, não se sinta explorada porque o marido não sabe onde fica o papel higiênico. Sinta-se orgulhosa.

Porque é você quem vai olhar para trás na velhice e ter a certeza, mesmo que seja a única em tê-la, de que foi a arquiteta e o peão-de-obra daquele império mais que especial: a sua família.


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Injustiça

Apesar de sábado, acordei cedo porque queria terminar de ler meu livro em paz, antes que a casa acordasse. É certo que com o baile à noite eu deveria dormir um pouco mais. Afinal, já estou bem desacostumada com noites badaladas. Acordei assim mesmo.

Um cafezinho formaria um bom par com a leitura, mas qual foi meu desgosto quando chego na cozinha e me lembro pelo cenário encontrado da louça esquecida da noite anterior. Livro e café abandonados, bucha e detergente entram em ação.

O barulho dos pratos e copos desperta a filha, que logo pede sua mamadeira. Criança alimentada, resolvo trocar de roupa e ir ao supermercado (já que o plano de ler em paz foi por pia abaixo).

Bem humorada, escolho tudo para levar mais por menos, economizando bem o dinheiro do marido. Caixa, casa, cozinha, avental verde da vovó. Depois de uma semana estressante a família bem que merece um almoço especial feito com muito carinho.

Dessa vez, para não ter desgosto, lavo tudo antes mesmo de colocar a comida na mesa. Comemos todos com muita satisfação: eles pela comida, eu por agradá-los. O papo se estende e quando dou por mim já são três da tarde.

Tiro a mesa, lavo o que sujamos (terceira leva de louças lavadas) e finalmente pego a maleta de esmaltes para fazer a unha. Quero ser a esposa mais linda entre os colegas de trabalho do marido que lá estarão.

Filha rouba um esmalte para imitar a mãe. Esta borra as unhas tentando limpar as daquela. São dezessete horas no relógio.

Unhas finalmente feitas, começo a procurar os vestidos de festa no fundo do armário. Vê-los tão lindos me anima. Escolho um e vou passá-lo.

Antes da babá chegar dou banho na filha e esquento seu jantar. Marido entra no banho antes de mim.

Dezenove horas entro no banho, saio para atender a porta. Babá chegou. Agora com alguma folga, vibro de prazeres por poder me dedicar à maquiagem e ao cabelo.

Marido chega com camisa amarrotada para passar. Deixo a chapinha pela metade e vou de encontro com seu primo, o ferro elétrico. Alguns minutos depois volto ao banheiro e sou avisada de que em vinte minutos estaremos saindo para a festa. Ele, obviamente, está descansado, engomado e cheiroso.

Não fosse a minha própria imagem estar em jogo, iria assim mesmo: descabelada e desmaquiada, só para encher o marido de vergonha.

Quando o interfone toca estou a cinco minutos de estar razoavelmente pronta. Se a filha não tivesse percebido a saída iminente dos pais e começado um berreiro de partir-corações, diria até que teria chegado no carro da carona sem suspeitas de atraso.

No elevador, ainda escutando os soluços da filha e segurando as próprias lágrimas para não borrar a maquiagem, lembro do perfume que deixei de passar. E eu achando que seria uma daquelas noites de Cinderela, das cinzas para o luxo. Penso no meu livro e na promessa do café e sinto saudades. Talvez fosse melhor nem ir.

Entro no carro e escuto as desculpas dadas à carona pelo companheiro: “Você sabe como as mulheres são enroladas para aprontar.”



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Lisboníssima


A Europa é cheia de destinos românticos para casais apaixonados. As gôndolas de Veneza já presenciaram inúmeras declarações de amor, que dirá a Torre Eiffel. Nessas férias descobri um novo lugar para os amantes: Lisboa.

Depois de horas intermináveis em um avião, na ponta de uma Europa plural, você chega a um pais que, desculpem-me aqueles que insistem nas similaridades entre Portugal e Brasil, é singular.

Chega a ser entorpecedor andar naquelas ruas embutidas em história e saudades. Não é de se espantar que de lá tenham surgido poetas como Camões e Fernando Pessoa. Lisboa é um poema em forma de cidade, escrito com azulejos, pausado com praças, ritmado pelo Tejo.

E mesmo estando milhares de kilometros distante de casa, dentro de um país estrangeiro com uma trajetória tão diferente da nossa, é possível abrir a boca e se fazer compreendido.

Não é uma Lisboa que todas nós buscamos nos homens afinal? Um alguém onde possamos nos reconhecer apesar das tantas diferenças que existem entre um homem e uma mulher? Um alguém que nos compreenda, apesar das distâncias?



domingo, 26 de abril de 2009

Ex-novas-qualidades

Não sei porque as pessoas não falam abertamente sobre o casamento. Há uma discussão acerca do matrimônio, mas a real mesmo você só descobre passando pela experiência de casar.

É mais ou menos como a amamentação. As mulheres até dizem que dói um pouco e há toda aquela campanha de conscientização para futuras mamães sobre a importância do aleitamento. Eu via os comerciais com atrizes satisfeitas e seus bebês saudáveis e realmente não entedia porque alguém deixaria de amamentar um recém nascido, principalmente quando ele é seu. Opinião que eu sustentei até ter parte do meu mamilo digerido pelo meu bebê. Nenhuma atriz de TV contou no seu comercial que aqueles trapinhos de gente eram fortes o suficiente para sugar não só o leite, mas o seio também. Ninguém, absolutamente ninguém, explicou que amamentar envolvia mutilação corporal.

Com relação ao casamento a coisa é bem parecida. Todo mundo fala sobre a dificuldade da convivência,mas sempre de uma maneira bem sutil. As pessoas preferem ressaltar como é maravilhosa a vida de recém casado a divulgar suas brigas domésticas. Assim que meu marido e eu estabelecemos uma rotina em casa pude perceber que a tal dificuldade de convivência não era apenas um clichê usado por casais infelizes (onde eu e meu apaixonado marido obviamente não nos encaixávamos). Logo vi que o negócio era sério mesmo e muito mais grave do que tinha sido alertada.

Eu sempre tive orgulho da inteligência do meu marido... um intelectual jovem e bonito, com um futuro brilhante pela frente. Enchia a boca para dizer que ele era dono de uma mini biblioteca em casa. Foi casar e minha percepção mudou um pouco. Passei a achar um bocado doentia sua obsessão por livros sem graça e empoeirados que ele trazia diariamente para casa. Infelizmente, São Paulo é cheia de sebos, um prato cheio a cada esquina para meu maníaco intelectual. Comecei a me preocupar com o espaço... logo nós teríamos que nos desfazer dos móveis para abrigar todos aqueles livros rejeitados que ficam nas estantes a procura de um lar.

Que dizer do gosto musical? Era super interessante ele ser fã dos anos oitenta, até perceber que minha casa estava com um ar constante de elevador e sala de espera, com aquela música repleta de teclados e saxofones. Hello? Anos oitenta já era.

Eu sei que não é só ele que tem ex-qualidades. Eu também tenho as minhas.


Outro dia dei um salto quando meu marido urrou de ódio porque eu estava, pasmem, pisando no tapete! Claro, porque os tapetes foram feitos para tornar a casa mais divertida, você deve pulá-los como numa gincana. Ele explicou alguma coisa de germes e higiene... justo ele que tem teias de aranha atrás do computador.

Se algum homem estiver lendo este texto agora deve estar balançando a cabeça em afirmação e dizendo para si mesmo “Está vendo como são as mulheres?”. Eu sei o que dizem... todas nós nos apaixonamos por um Che Guevara revolucionário mas basta colocarmos o anel na mão esquerda e logo queremos que ele faça as barbas e vire um homem de verdade. Mas não pensem que isso é planejado. A gente realmente aprecia as características mais peculiares... inclusive nos apaixonamos por elas e elas simplesmente... simplesmente perdem a graça depois do casamento. Talvez seja uma manobra hormonal estrategicamente realizada pelo corpo. Talvez nossos hormônios são favoráveis as suas manias só para que nos casemos e nos acasalemos e as taxas desse hormônio caem após o casamento, uma vez que a união já está garantida. Vai saber...


O fato é que a tal primeira semana do casamento que dizem ser tão romântica foi um pandemônio. Simplesmente tudo no meu marido me irritava, e o interessante é que esse “tudo” era exatamente o mesmo “tudo” que eu mais amava no meu noivo. Era assustador como um detalhe tão pequeno como a escova de dentes de cabeça para baixo podia abafar um amor tão lindo e estragar um dia inteiro de bom humor.

E por um tempo eu achei que tivesse alguma coisa errada...que talvez nós não tínhamos sido feitos um para o outro.

Até que desabafei com uma amiga casada, apesar de não gostar da ideia de escancarar as minhas fragilidades conjugais. (E isso me fez entender um pouco deste complô entre as casadas de não avisarem para as noivas iludidas o que é o casamento). Para a minha surpresa, ela tinha passado exatamente pela mesma crise pós nupcial. Justo ela e o marido, que pareciam estar em lua de mel mesmo depois de um ano debaixo do mesmo teto, também tinham brigas constantes por causa da roupa jogada no chão e pelo fato dele dormir por cima do edredom. Ou seja, brigas fazem parte do cotidiano e nem por isso as pessoas deixam de se amar. (Engraçado... parece que alguém já havia me dito isso antes. Talvez eu que não tenha captado a mensagem direito).

Na terceira semana de casada meu marido teve que viajar a trabalho e eu achei uma delícia poder colocar ordem na casa à minha maneira. A primeira coisa que fiz assim que ele atravessou a porta foi recolher todas as pilhas de livros distribuídas pela casa e enxotá-las todas no seu armário. Enquanto ia de um lado para o outro fazia questão de pisar nos tapetes com meu tênis sujo de cidade e cantava um rap bem atual e anti-eighties.

Surprise, surprise. No dia seguinte acordei sentindo um vazio enorme sem aquela música de elevador. Arrastei-me até a sala e liguei o som. Quase cai dura com o volume alto que eu deixara do dia anterior e com a música bate estaca que tocava. Mudei a estação da Jovem-Pan para a ALPHA FM, onde tocava uma música do George Benson. “Bem melhor”, suspirei aliviada. Olhei para o apartamento ao meu redor e estava tudo irritantemente em seu lugar. Tive vontade de buscar os livros de dentro do armário e espalhá-los pela casa novamente. Sentei no sofá e fiquei olhando para o nada... sentindo a falta do meu marido me dando um beijo de bom dia com sua barba por fazer. Fui ao banheiro e enquanto esvaziava a bexiga estiquei a perna e encostei cautelosamente as pontas dos pés no tapetinho do banheiro e desejei profundamente que meu marido saísse aos berros de dentro do box dizendo que eu era uma porca.

Entendi uma série de clichês como “ninguém é perfeito”, “amo você do jeito que você é” e “não consigo viver sem você”.

Percebi que nossas brigas faziam tanta falta quanto seu cheiro, seus livros, suas músicas. Afinal, todos esses detalhes juntos resultam nele.

E eu o amo.




terça-feira, 21 de abril de 2009

Passar o dia passando

Ontem tirei o dia para passar roupas.
Não dava mais pra adiar. Já há alguns dias eu vinha notando que meu marido ia um pouco desleixado para o trabalho, de camiseta de algodão em vez das camisas sociais de sempre. Imagino que por temer a minha reação ele preferiu se virar com o que tinha no armário a reclamar qualquer coisa comigo. Garoto esperto.
Mas o que me fez tomar essa atitude mesmo foi quando a poltrona onde ficam as roupas recém tiradas da máquina excedeu seu limite e tive que começar a usar o nosso único sofá. Uma vez inutilizado, passei para as cadeiras da mesa de jantar.
Eu nem estava achando ruim de ter que usar minhas roupas antigas, aquelas que ficam no armário uma eternidade até a gente acordar com o espírito de usá-las. O que me fez resolver tirar o dia para passar roupa foi mesmo a falta de lugar para sentar. Essa história de comer na cozinha ou no quarto não estava muito legal.
Pois bem. Peguei meu ferro lilás com base antiaderente super deslizante, montei a mesa no meio da sala (mais perto do sofá onde estavam as roupas), liguei a televisão e comecei.

O ferro, presente da minha amiga Kerol, é mesmo uma beleza. Seus dezenove furos de saída de vapor me faziam sentir em um clipe musical dos anos oitenta: eu executava minha coreografia de pra lá e pra cá enquanto aquela fumaça subia a minha volta. Um arraso!

Tanto é que depois de duas horas quem estava arrasada era eu. Transpirava como eu não transpiro nem depois de duas horas de caminhada. Dor nas costas. Dor no braço. Dor de cabeça. Dor nos pés. Dor nos joelhos.

Coincidentemente, a tevê mostrava aqueles programas em que pessoas entendidas do assunto revelam segredos da moda para pessoas que não sabem se vestir. (Vocês vão entender a coincidência jajá). Dão cinco mil dólares para a pessoa renovar o guarda roupas seguindo as instruções dadas para se tornar alguém elegante. É uma delícia ver as transformações e as dicas que a princípio parecem sutis acabam fazendo uma diferença monstruosa no fim das contas (ok, talvez não deveria ter usado a palavra MONSTRuOsa para falar de algo bonito, mas vocês entenderam onde eu queria chegar).

Bom, depois de quatro horas ininterruptas de passação de roupa (passei as roupas e a tarde também) sou eu quem tem algumas considerações a respeito de que tipo de roupa se deve usar hoje em dia.

Primeira consideração: chega de calça jeans! Não é possível que uma sociedade que se transforma tão rapidamente teime em conservar uma moda que começou no século passado. Levis Strauss já teve o sucesso merecido, agora chega. Duvido que você use aquela legging de laycra brilhosa de 1985. Porque diabos quer usar uma lona desbotada que era moda desde antes de você nascer? Evolua!

Segunda consideração: é estritamente proibido o uso de bolsos, seja em calças (nem preciso mencionar as jeans), camisas, saias ou vestidos. Me responda uma coisa: pra que é que existe bolsa? Sim, muito bem, para guardar coisas. É tão gostoso comprar bolsas e variá-las, elas dão um toque importantíssimo para o nosso look. Você definitivamente não precisa de mini compartimentos pela roupa para guardar mais coisa, muito menos nessa estação onde as bolsas gigantescas estão na moda.

Quem usa calça ou bermuda cargo deve pagar multa e ainda passar quinze dias na prisão. Bolsos laterais (com preguinhas e alojados bem no meio da costura da perna) é invenção de louco e só funciona para soldado em missão nas fronteiras com o estrangeiro da floresta Amazônica. Eles não precisam estar passados, mesmo porque aquela estampa camuflada disfarça bem as rugas da roupa. Mas isso é pra eles, para nós, NÃO.

Terceira consideração: está abolido a partir de hoje o uso de roupas com pregas. Depois de muito complicar hoje o que é “in” é CLEAN, você nunca ouviu falar? Cllllllean, limpo, simples, chapado... sem fru-fru. Prega vale pra kilt de lã (saia escocesa) que dispensa o uso do ferro de tão grossa que é. Mas prega em cetim e afins estão a-bo-li-das. Nem aquelas duas pregas atrás da camisa masculina na costura do ombro podem mais. Nunca entendi porque elas existem... O que pretendem realçar?

Quarta consideração: dane-se o CC - Poliéster é MARA!


terça-feira, 14 de abril de 2009

Notícias pós-lua-de-mel


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Olá minhas amigas queridas. Como vão vocês? Por aqui vai tudo ótimo. Estou curtindo bastante a minha vida de recém casada. Resolvi dar um “break” enquanto as roupas delicadas (antipatiiiia) que devem ser lavadas a mão estão de molho para vir escrever pra vocês e contar um pouco da minha vida no último mês.

Depois de ter me acostumado com o ritmo de trabalhar fora, resolvi que tinha que ser útil em casa para compensar o dinheiro que eu não ganho. Gastei toda a minha energia nas duas primeiras semanas limpando este apartamento. Eu sei que metade de vocês não vai acreditar, com certeza minha mãe não vai, mas eu estava obcecada por limpeza. Escalava as janelas para limpar as frestas, passava aspirador de pó nos minúsculos vãos entre os tacos antigos (devo ter tirado poeira do século passado que estava ali), quase entrava dentro dos ralos pra ter certeza de que todos os fios de cabelo tinham saído de lá. É claro que no fim do dia eu estava exausta e frustrada porque além de não ter limpado tudo o que tinha para ser limpo (SEMPRE há um cantinho que a gente esquece. No dia seguinte à faxina geral você encontra uma teia de aranha atrás da TV e ela olha pra você e diz: “há! Você não me acho-ou, eu ganhe-ei!), eu estava descabelada, suada e exalando um perfume de Veja com querosene.

É claro que isso rendeu algumas brigas de casal, como no dia em que meu marido muito calmamente foi cortar as unhas do pé com o seu delicado Trim no meio da sala que já havia sido varrida-aspirada-espanada.

Então resolvi mudar de postura (ainda estou escolhendo que tipo de esposa eu vou ser) e não me importar tanto com limpeza. Percebi que estava sendo um pouco neurótica depois de definir uma linha na cama de casal porque meu marido dormia com todos os germes da cidade grande sem um banho no fim do dia. Desencanei total, fiquei “sussa”, como dizem os paulistas. Acordei um dia e
resolvi fazer minha unha, passear no shopping, assistir TV, ler meu livro...

(Pausa para falar do livro que estou lendo. Ele é ótimo, ótimo mesmo. A vida “tranqüila” que eu tenho levado me permitiu, no último MÊS, sair do início da página 48 para o meio da página 48).

Em dois dias a casa foi atingida por um furacão. Brinquedos, livros, sapatos por todos os lados. Copos então... nem se fala. Parecia aquela casa do filme “Sinais” em que a menina tinha mania de beber água e espalhava copos por todo o canto. Pelo menos se formos atacados por alienígenas estaremos salvos, pensei.
Suuuuussa, sussa eu vi que não dá pra ficar. Então resolvi... bom, não resolvi nada por enquanto. Esse dia que estou narrando é o dia de hoje. Depois desse e-mail vou ter que dar um jeito na bagunça.

Bom, tirando as questões de limpeza... tem a nossa filha, princesa máster. Só agora eu estou percebendo quanta ajuda tinha antes de casar. Agora não tem mais que faça um mamá nem ocasionalmente, sou eu quem tem que preparar todas as refeições, fazê-la engolir as refeições e depois escovar seus dentes. Sou eu quem tem que levá-la e buscá-la na escola (essa hora é sempre uma loucura. Não importa o que eu esteja fazendo eu tenho que largar tudo e ir tomar uma ducha, maquiar e colocar uma roupa decente. As outras mães são chiquerérrimas... tenho que ir apresentável para a escola). Sou eu que dou todos os banhos, lavo todas as roupas... inclusive os uniformes que tem que ser lavados à mão diariamente. Sou eu quem lê as histórias antes de dormir, arrumo os brinquedos, tiro a poeira do quarto... (Travei guerra contra o mofo do armário dela. A cada dois dias eu entro naquele quarto com uma fralda amarrada no nariz e segurando um balde com vinagre e álcool, aspirados e secador de cabelo para mais uma batalha. Maldito mofo!). Fazer todas essas coisas de mãe cansa também, mas ao contrário dos outros trabalhos domésticos, esse me faz sentir bem. É como quando a gente vai fazer uma escova e sai do salão com o ego lá em cima, feliz e confiante na nossa feminilidade. Quando acabo com a minha mão lavando o uniforme manchado de tinta me sinto uma super mãe, e eu adoro me sentir assim.

Entrando na feminilidade... eu e meu marido vamos muito bem, obrigado. É incrível como o casamento muda a relação entre duas pessoas. Eu e ele subimos uns trinta degraus na nossa relação depois do casamento. O nosso amadurecimento é constante e visível. É como aqueles grãos de feijão no algodão que são filmados ininterruptamente por uma semana e depois passam na televisão com uma velocidade 20 vezes maior e em segundo a gente vê o grão germinar, crescer, dar folhas... Dá pra sentir a gente crescendo juntos e isso é maravilhoso.

Depois de crises de exaustão, revoltas, empolgações, acho que estou finalmente me adaptando. Não estou neurótica nem irresponsável. E tenho, sim, curtido ficar em casa e poder assessorar a minha filha o tempo todo. Nunca imaginei que seria assim, mas cuidar do lar é até bem legal. Meus vídeos favoritos no Youtube são “dicas para passar camisa social” e “como tirar manchas de desodorante das roupas”. Descobri que o Youtube é um ótimo conselheiro depois de ter usado toda a linguagem chula que eu não usei durante a minha vida tentando dobrar um lençol com elástico. Digitei desesperadamente no Google “como dobrar lençol com elástico” e lá apareceu um link para o queridíssimo Youtube. Desde então ele tem sido minha comadre, trocamos todo o tipo de idéia e eu nunca mais me desesperei frente a um desafio doméstico.

Bom...o tempo está passando e é melhor eu recolher os copos antes que minha casa seja foco de dengue. Só tenho que achar meu avental verde com bico de crochê que minha vó me deu. Ele é a coisa mais prática que eu ganhei porque além de proteger minhas roupas e ser um ótimo pano de prato para emergências, ele disfarça a barriga.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Uma breve introdução



Ser mãe solteira aos 21 anos de idade não é coisa fácil. Aos 21 ainda somos inseguras e nos preocupamos excessivamente com a opinião alheia. Pelo menos eu me preocupava. Ainda nem estava acostumada com a idéia de que tinha uma vida sexual e era um tanto constrangedor desfilar com a minha cara de menina e minha barriga de grávida. Era como escrever na testa para todo mundo ver: “eu fiz sexo”.
Isso causava um grande espanto nas pessoas porque apesar da minha maioridade eu parecia ter uns 17 anos. Sem contar os tênis e calças jeans, meus itens preferidos no guarda roupas.
Ou talvez as pessoas nem percebessem... mas eu percebia a minha imaturidade.

Eu que nunca quisera namorar (sempre estive em paz com minha solteirice) fiquei obcecada por casamento. Não que eu quisesse casar. Apesar de mal ter iniciado a minha sexualidade já estava disposta a encerrá-la por ali. Naquela época eu só não me candidatei em um convento porque imaginei que não aceitariam uma aspirante à freira com um filho a tiracolo.


Eu simplesmente passei a reparar em como uma sociedade que se diz moderna ainda prezava coisas tão antiquadas como o casamento.


Uma propaganda de seguro de vida mostrava uma barriga de uns oito meses e uma mão acariciando-a enquanto um narrador falava qualquer coisa sobre cuidar das pessoas que amamos. A cabeça da dona da barriga não aparecia, nem nenhuma roupa, nenhum cenário... apenas uma reluzente aliança servia de figurino para modelo. Até na embalagem do adoçante tinha (ainda tem!) o retrato de um casal tomando café da manhã com seus pijamas cheirosos e duas alianças grossas o suficiente para serem notadas.

Eu via o olhar das pessoas desviarem da minha barriga enorme e redonda direto para a minha mão esquerda e depois, numa última hipótese esperançosa, para a minha mão direita. O mundo todo parecia me cobrar um pai para a minha barriga.


Ou, pensando de trás pra frente (ou de frente pra trás), talvez fosse apenas a minha imaginação e eu que na verdade fosse antiquada e sofria por não exibir aliança nenhuma em meu dedo.

Justo eu que achava a coisa mais cafona do mundo usar aliança de compromisso quando se é namorado, comecei a virar meu único anel de ouro de modo que o design de coração ficasse escondido na palma da minha mão. Aquele pequeno risco dourado em meu dedo me fazia sentir tão mais segura e pronta pra enfrentar todo o mundo.


Mas cá com meus botões eu sabia que aquele casamento era entre mim e minha filha apenas. Foram nove meses de noivado até que nos casamos no dia do seu nascimento. Um casamento que já dura quatro anos e que com certeza será eterno.


Depois que ela nasceu, logo depois mesmo, tipo no dia seguinte, eu já estava um bocado mais madura. Esqueci dessa história de aliança, apesar de sentir uma pontada no coração toda vez que via um pai babão na maternidade. De qualquer forma acho que mesmo que ele existisse um pai não caberia no nosso apartamento no hospital pois ele estava abarrotado de amor. O meu amor pela minha filha jorrava sem parar por toda parte, afogando tudo a nossa volta e suprindo toda e qualquer falta.


Eu não sentia mais falta de nada porque o que era mais importante eu conseguia carregar nos braços.


Mas a vida é aquela velha amiga sacana... que adora pregar uma peça na gente. Justo naquele sábado à noite em que você está disposta a ficar sossegada em casa ela vem toda animada e não te larga o pé enquanto você não topar sair e dar uma volta com ela. E em nome da velha amizade você acaba se rendendo e sai, mas com a certeza de que vai acabar se metendo em encrenca. A vida sempre arruma encrenca.

Dito e feito. A encrenqueira me arrumou um novo amor. Eu que já era uma obesa mórbida de tanto amor materno que existia dentro de mim tive que fazer meu coração crescer ainda mais para cultivar um amor de mulher por um homem.

Quando eu nem queria mais, ganhei uma aliança de verdade e sem nem perceber ela saiu da mão direita e foi morar na esquerda. Agora eu tenho uma família típica de propaganda de seguro e de embalagem de adoçante.